O Oriente Médio é de longe uma das primeiras escolhas de brasileiros para um intercâmbio profissional. Todos os caminhos sempre levam, comumente, para a América do Norte e para a Europa.
A curiosidade de saber o que se passa em vários lugares do mundo, e as experiências vividas por estudantes e profissionais é o que me motiva a construir este trabalho e propor diversas conversas com pessoas que buscam incrementar sua carreira em lugares diferentes daqueles em que foram criadas.
Quanto ao Egito? mais diferente, impossível. Escolhi a história do Renan pra ser a primeira de muitas outras que virão, e farão você refletir e desafiar-se em novos aprendizados. Vamos lá!
Renan Caixeiro, 21 anos, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, sua cidade natal, e tem direcionado sua carreira para as áreas de marketing e comunicação empresarial. Desde janeiro de 2010 está em um intercâmbio na Platinum Partners, uma consultoria de administração no Cairo, capital do Egito, onde ficará até o próximo 30 de abril.
Viviany: Ao chegar no país você enfrentou alguma dificuldade quanto à adaptação cultural? Existem costumes muito diferentes se comparados ao Brasil?
Renan: Em relação ao Egito eu tive duas dificuldades fortes no começo. A primeira foi em relação à alimentação. Além de não estar habituado à culinária local, os horários de café da manhã e almoço também me confundiram. É costume aqui o café ser por volta de meio dia e o almoço por volta de 19h – então tive que me acostumar com um lanche no horário do almoço (do Brasil).
Meu outro problema foi chegar ao trabalho. O transporte público na cidade do Cairo é bastante confuso e desorganizado. Demorava cerca de 2 horas só para chegar ao trabalho e tinha que caminhar, pegar metrô e táxi. Além de isto ser cansativo, ficava pesado no meu orçamento aqui, mas graças a Deus consegui me mudar para um lugar próximo ao trabalho – agora caminho cerca de 15 minutos.
De uma maneira geral, o que diferencia o Egito do Brasil é a influência da religião no dia-a-dia. O Brasil é um Estado laico, apesar de a maioria ser cristã, já no Egito não há essa separação, pois o Estado é islâmico. Por um lado isto é ótimo, mas por outro limita algumas coisas – pra quem gosta de bebida alcoólica, principalmente. O lado bom é que os egípcios seguem a religião islâmica e dentre outras coisas esta é uma religião que combate a criminalidade. Assaltos e assassinatos são coisas raras no Egito; este é um dos países mais seguros do mundo, até mais do que alguns europeus, por exemplo. O policiamento é bastante presente também.
Além disso, a religião influencia muito no relacionamento entre as pessoas. É raro ver grupos de amigos de homens e mulheres, pois isto é bem separado. As mulheres só andam com mulheres e por aí vai. Já entre os homens as relações são bem parecidas com as do Brasil – de certa forma, até mais abertas, pois é comum ver amigos andando de mãos e braços dados – o que simboliza uma amizade forte entre homens, e lembrando que homossexualismo não é algo comum por aqui.
Viviany: Em qual empresa você trabalha, qual a sua função?
Renan: A Platinum Partners é uma empresa de pequeno porte, com cerca de 15 funcionários fixos e outros que são contratados para projetos específicos. Ela trabalha com consultoria na área de desenvolvimento de negócios, além de vender treinamentos, concorrendo principalmente com empresas como PriceWaterhouseCoopers aqui no Oriente Médio.
Minha função é de estagiário. Eu executo algumas tarefas de suporte (comunicação e marketing) e trabalhei com treinamento de empresas na área de vendas (um dos produtos da consultoria). Minha job é um projeto interno, e basicamente o que eu faço é estudar bastante sobre vendas (e demais treinamentos que eles já deram) e organizar o material para os próximos eventos, que duram cerca de 3 dias.
Eu trabalho diretamente com uma equipe de egípcios e com outros intercambistas que estão aqui.
Viviany: Durante este tempo que você tem trabalhado com marketing no Egito, já é possível identificar práticas de trabalho diferentes das existentes no Brasil? Viu algo de inovador ou algo muito atrasado que vale a pena ser melhorado nesta área?
Renan: Eu identifiquei um estilo bastante diferente de trabalho. De certa forma, os egípcios são mais “tranqüilos” para trabalhar, e as coisas fluem de forma bem solta, sem muita pressão. Eu esperava muito mais pressão, principalmente por se tratar de uma consultoria.
Pelo que eu percebi, eu diria que o Egito está como o Brasil estava há cerca de 20 anos. Os conceitos de marketing e comunicação empresarial, por exemplo, ainda estão dando os primeiros passos por aqui. Não vi muita inovação, vi mais imitação. Há mais influência das empresas americanas e européias no Mercado – elas se destacam pelas ações.
O que eu percebo é um Egito que caminha rumo a uma “ocidentalização” – eles adoram carros como Mercedes e BMW, música eletrônica americana, fast food, futebol europeu, roupas italianas, etc. Por outro lado, há ainda a forte presença da cultura islâmica e árabe nos costumes, relacionamentos e gestão de negócios.
Pelo lado do Jornalismo, a minha formação, o que eu vejo não me anima. A mídia não tem muita liberdade de expressão – o país vive uma espécie de ditadura “democrática”, com um presidente “eleito” que completará 30 anos no poder. Uma boa parte da população nunca teve outro presidente. Eu acredito que isso é um entrave no desenvolvimento do país, mas mesmo assim não dá pra ver uma saída “democrática” para os próximos anos, pois a população precisa ser educada quanto a isso e há muito trabalho a ser feito.
Viviany: Você foi para um país que não é muito comum nos destinos de viagens. Que mensagem deixa para um estudante ou profissional que deseja buscar oportunidades em países diferentes, e passar por este tipo de experiência?
Renan: Quanto mais diferente, melhor. Quem estiver interessado em buscar um intercâmbio, eu aconselho a se desafiar em um lugar como o Oriente Médio. Quanto maior o choque cultural, melhor vai ser a experiência – é o que acredito.
Se você quiser conhecer mais sobre esta experiência, os relatos são encontrados no blog do Renan em http://renancaixeiro.wordpress.com. Confere lá!
Viviany



